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Instituto Brasileiro de Engenharia,
Arquitetura
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 A Arte da Inclusão

Instituto Rodrigo Mendes promove inclusão de pessoas com deficiência atráves da arte 

 


Por Aline Lamas 

Denis Moreira da Costa, 22 anos, jovem artista ainda em início de carreira, teve seu primeiro contato com as artes plásticas há dois anos, quando começou a fazer aulas no Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos, que desenvolve uma série de atividades inclusivas por meio da prática artística.

 

Aos dez anos Denis já desenhava seus personagens prediletos. Estudante da rede pública de ensino, ele participou do programa Eduque, o qual oferecia oficinas de diferentes temáticas, dentre as quais sempre escolhia aquelas voltadas para o meio artístico. Fez grafite, desenhos, montou cenários para peças de teatro. Mas foi somente em 2006 que teve contato com sua primeira tela.

 

 

O Instituto foi fundado por Rodrigo Mendes em 1994, três anos após ter sofrido um acidente que o deixou tetraplégico. A convite de um artista, Rodrigo começou a pintar durante uma fase de reabilitação, procurando, por meio das artes visuais, resgatar seu lado criativo. “Conforme eu fui experimentando e fui produzindo me deu essa vontade de oferecer oportunidade para outras pessoas. Oportunidade de se desenvolver e de conhecer o universo da arte. Eu identifiquei ali que, com a minha experiência, eu poderia contribuir com as pessoas, poderia tentar devolver bem-estar a elas e ajudá-las a criar novos horizontes” relembra Rodrigo.

 

 

 

 

Focado inicialmente em desenvolver oportunidade de desenvolvimento artístico para pessoas com deficiência, hoje, o único pré-requisito para entrar no Instituto é ter interesse pela arte.

 

Rodrigo Mendes vê a arte como um campo de conhecimento pautado por aquilo que cada um tem de singular, o que, por sua vez, contribui com a questão da inclusão, pois, a seu ver, para entendê-la é fundamental que se respeite a singularidade de cada indivíduo. “A arte é uma área da expressão humana que sempre teve uma relação muito grande com a busca por novos padrões, por novas perspectivas. Principalmente quando você pensa a arte contemporânea. É uma área do fazer muito ligada à ruptura, à busca por novas possibilidades, ao desprendimento de antigos padrões, ao questionamento, à desconstrução daquilo que é dado como uma norma, e tudo isso é muito presente na inclusão”, ressalta Rodrigo.

 

Localizado na região Butatã, o Instituto tem suas atividades divididas em três programas. O primeiro deles é o “programa singular” que consiste basicamente nos cursos de arte, os quais atendem a cerca de cem alunos com diferentes origens sociais, culturais e características físicas. Agrupados em grupos de 12, os alunos têm três horas semanais de aulas, durante as quais desenvolvem linguagens como pintura, desenho, colagem, gravura ou modelagem em argila.

 

“Eu sou um privilegiado, porque eu vejo todas as turmas. Então para mim, todo dia é dia de aprendizagem. Eu vejo gente que é cega e faz escultura, vejo gente que pinta com a boca, que não reclama da vida. Fazem tudo com naturalidade, sorrindo. Procuro me espelhar na força de vontade que eles têm”, conta Denis, que, por estudar e trabalhar no Instituto, acompanha a todas as aulas oferecidas.

 

 

 

O segundo programa é o chamado “programa plural” que tem como objetivo formar professores sobre a questão da inclusão. Para isso, foram eleitas cinco temáticas principais: a quebra do olhar, a mudança de padrão, a singularidade, a acessibilidade e a memória.

 

A coordenadora, Ana Maria Gitahy, explica a dinâmica do programa: “Nós criamos algumas oficinas de arte, onde os professores são convidados, através de práticas, a fazer algumas atividades e, a partir dessas atividades, discutir e pensar esses temas. Eles vivem situações de quebra de padrões e a gente então reflete esses temas necessários para se fazer uma escola para todos”.

 

Já o “programa geração” visa à formação e geração de renda para os alunos, além de colaborar com a sustentabilidade do Instituto. A principal estratégia utilizada é a comercialização do direito das imagens produzidas pelos alunos, através de licenças concedidas à empresas como: Tilibra, Bauducco, Artex e Pitágoras, que utilizam em seus produtos imagens produzidas pelos alunos da organização, os quais recebem 20% do valor pago pela licença.

 

Além disso, todo final de ano o Instituto realiza a Expoarte, uma exposição com as obras dos alunos, na qual as obras são vendidas. Do valor de venda da obra, 85% é destinado ao aluno.

 

 


Entrevistado:
Rodrigo Mendes

Rodrigo Mendes, administrador de empresas, ficou tetraplégico em 1991, após sofrer um grave acidente. Em sua luta por reconstruir sua autonomia pessoal, Rodrigo começou a pintar. Fundador do Instituto Rodrigo Mendes, ele vê na arte uma ferramenta de inclusão social.

 


Por Aline Lamas

Como você começou a pintar?
Eu comecei a pintar numa fase de reabilitação. Em 1991, depois de terminar o colegial, eu sofri um acidente e tive um período longo de fisioterapia até que eu pudesse voltar a estudar. Então, a convite de um artista, eu comecei a ter aulas de pintura. No princípio era algo para o meu lazer, eu procurava uma atividade que pudesse resgatar o meu lado criativo nesta fase em que eu ainda estava aguardando ter condições de estudar.


Como surgiu a idéia de criar o Instituto?
Conforme eu fui experimentando e produzindo, senti uma vontade de oferecer essa oportunidade para outras pessoas: oportunidade de se desenvolver; de conhecer o universo da arte. Acredito que isto tenha relação com a minha adolescência. Eu queria ser medico e o Instituto foi a maneira que encontrei de tentar fazer aquilo que eu acho bonito na medicina: devolver bem-estar às pessoas e criar horizontes novos. Eu identifiquei ali que, com a minha experiência, eu poderia contribuir com as pessoas.

Como arte contribui para a inclusão?
A arte é um campo extremamente rico para se pensar e para se refletir sobre a inclusão, porque ela é, por natureza, um campo de conhecimento pautado por aquilo que cada um tem de singular. O processo criativo,  a descoberta, a construção de um percurso experimentando o universo da arte. Tudo isso tem muita relação com a particularidade singular que cada um carrega. Portanto, essa é a primeira analogia que podemos fazer entre as duas áreas, tendo em vista que, quando a gente pensa em inclusão, é fundamental que você entenda e respeite a singularidade de cada indivíduo.


Outro aspecto que poderíamos ressaltar é que a arte é uma área da expressão humana relacionada à busca de novos padrões e novas perspectivas, principalmente, quando se pensa a arte contemporânea. Ela é uma área do produzir da humanidade muito ligada à ruptura, à busca de novas possibilidades, ao desprendimento de antigos padrões, ao questionamento, à desconstrução daquilo que é dado como uma norma, e todas essas temáticas estão muito presentes na inclusão. O processo de inclusão só acontece quando se está disposto a reconstruir o modelo que conhecemos desde pequenos e no qual fomos educados. Um modelo pautado pela homogeneidade, pelos padrões, por um entendimento do ser humano como um grupo de pessoas que se desenvolvem de forma semelhante, o que é incoerente ou incompatível com a visão de que cada pessoa tem um universo particular e singular.


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